Naquela manhã de Abril, há 36 anos (tinha eu 13 anos), para mim e para todos os outros era um dia normal, pois quando chegámos de comboio à estação Nova de Coimbra, nem imaginávamos o que estava a acontecer em Lisboa.
À nossa espera, como sempre, estava uma colega da minha vizinha, que chegando mais cedo, esperava por nós na estação, depois seguíamos para a missa das 8 h
oras da manhã na Igreja de Santa Cruz. Nessa manhã, a Fernanda estava com um ar muito aflito, quando nos viu disse-nos que tinham ligado para a tia dela para esta não ir trabalhar pois em Lisboa estava a decorrer um golpe de estado e os pais dela nem queriam que esta saísse de casa, pois estavam com medo que lhe acontecesse alguma coisa. A emissora Nacional não dava notícias nenhumas, a rádio Clube Português só dava a música do Zeca Afonso, que estava proibida por ser considerada uma música revolucionária e havia um comunicado das Forças Armadas que pedia às pessoas que não saíssem de casa, pois havia muita confusão nas ruas e não queriam que houvesse feridos.
Nesse dia, sentia-se o medo no ar, ninguém falava pois não se sabia o que estaria a acontecer. Nessa altura vivia-se numa ditadura muito má, sem igual, que já durava há 48 anos. As pessoas não tinham dinheiro, os ordenados eram muitos baixos, quem queria dar uma vida melhor à família tinha que ir de assalto para França ou Alemanha, mas sempre às escondidas das autoridades; não se podia falar nem com a sombra; havia muitos presos políticos, muitos deles sem fazerem mal a ninguém; não se podia ter ou expressar uma opinião diferente da do governo; os jovens tinham que ir para a guerra para as antigas colónias; havia a PIDE, a Policia Civil que andava sempre atrás dos revolucionários. O alvo favorito eram os estudantes, e caso fossem apanhados a manifestar-se contra o regime iam logo presos e na maioria das vezes nunca mais eram vistos; nessa altura não havia eleições livres e só os homens podiam votar e tinham de votar obrigatoriamente no governo que estava no poder; Portugal era um país pobre e triste; os militares que tinham regressado há pouco tempo do Ultramar estavam apavorados com o facto de terem de regressar à guerra, pois nessa altura os rapazes eram obrigados a ir e muitos nem sequer voltavam.
Lembro-me que, quando chegámos nessa manhã à igreja, esta estava fechada, o café da Santa Cruz também estava fechado, as pessoas estavam escondidas a tentar ouvir as notícias na rádio, ao mesmo tempo com medo de ser mentira e de serem presas.
Naquela época, o trânsito passava pela baixa, a Santa Cruz era uma das paragens do autocarro e era sempre muito movimentada, mas nessa manhã não passava ninguém. Viam-se alguns grupos de pessoas a passar mas muito raros, tal como os carros, passava um agora
e outro muito depois. Então a minha vizinha, que era muito mais velha, não me deixou ficar sozinha na baixa e levou-me com ela para a Escola Brotero e lá ficámos até nos virem buscar. A escola também estava fechada, mas os alunos iam chegando e também iam ficando até alguém os ir buscar.
Só à noite, quando a RTP abriu a emissão, é que se soube o que realmente tinha acontecido e vimos as imagens. Lembro-me que a maioria das pessoas foi para casa de outras que tinham televisão para verem o que realmente teria acontecido pois nem queriam acreditar que fosse verdade, que o regime de Salazar, Marcelo Caetano e Américo Tomás tinha ido abaixo.
Depois desse dia, os tempos foram de mudança, de liberdade mas também de crise, pois com o fim da guerra no Ultramar e da entrega das Colónias, muitos portugueses regressaram a Portugal sem nada. A partir daí, as pessoas começaram a ter mais liberdade e a poderem escolher, por exemplo, o seu visual - os homens deixaram crescer o cabelo e as barbas, começaram a usar calças à boca-de-sino, as senhoras usavam saias mais curtas e passaram a usar também calças. As pessoas deixaram de fumar às escondidas, os casais de namorados passaram a poder-se beijar na rua, coisas que antes da revolução do 25 de Abril era completamente impensável fazer.
O 25 de Abril de 1974 trouxe a liberdade ao povo, que antes deste vivia debaixo de uma grande opressão. Hoje somos livres de falar e criticar as decisões do governo se não as acharmos correctas, o voto é livre e já ninguém é obrigado a ir para a guerra.
O 25 de Abril não trouxe só coisas boas, mas depois deste vivemos muito melhor pois não estamos sempre com medo de falar e de estar sempre alguém que nos possa ouvir e nos levar presos.
Formanda do CNO
Maria de Lurdes Silva Jorge
À nossa espera, como sempre, estava uma colega da minha vizinha, que chegando mais cedo, esperava por nós na estação, depois seguíamos para a missa das 8 h
oras da manhã na Igreja de Santa Cruz. Nessa manhã, a Fernanda estava com um ar muito aflito, quando nos viu disse-nos que tinham ligado para a tia dela para esta não ir trabalhar pois em Lisboa estava a decorrer um golpe de estado e os pais dela nem queriam que esta saísse de casa, pois estavam com medo que lhe acontecesse alguma coisa. A emissora Nacional não dava notícias nenhumas, a rádio Clube Português só dava a música do Zeca Afonso, que estava proibida por ser considerada uma música revolucionária e havia um comunicado das Forças Armadas que pedia às pessoas que não saíssem de casa, pois havia muita confusão nas ruas e não queriam que houvesse feridos.Nesse dia, sentia-se o medo no ar, ninguém falava pois não se sabia o que estaria a acontecer. Nessa altura vivia-se numa ditadura muito má, sem igual, que já durava há 48 anos. As pessoas não tinham dinheiro, os ordenados eram muitos baixos, quem queria dar uma vida melhor à família tinha que ir de assalto para França ou Alemanha, mas sempre às escondidas das autoridades; não se podia falar nem com a sombra; havia muitos presos políticos, muitos deles sem fazerem mal a ninguém; não se podia ter ou expressar uma opinião diferente da do governo; os jovens tinham que ir para a guerra para as antigas colónias; havia a PIDE, a Policia Civil que andava sempre atrás dos revolucionários. O alvo favorito eram os estudantes, e caso fossem apanhados a manifestar-se contra o regime iam logo presos e na maioria das vezes nunca mais eram vistos; nessa altura não havia eleições livres e só os homens podiam votar e tinham de votar obrigatoriamente no governo que estava no poder; Portugal era um país pobre e triste; os militares que tinham regressado há pouco tempo do Ultramar estavam apavorados com o facto de terem de regressar à guerra, pois nessa altura os rapazes eram obrigados a ir e muitos nem sequer voltavam.
Lembro-me que, quando chegámos nessa manhã à igreja, esta estava fechada, o café da Santa Cruz também estava fechado, as pessoas estavam escondidas a tentar ouvir as notícias na rádio, ao mesmo tempo com medo de ser mentira e de serem presas.
Naquela época, o trânsito passava pela baixa, a Santa Cruz era uma das paragens do autocarro e era sempre muito movimentada, mas nessa manhã não passava ninguém. Viam-se alguns grupos de pessoas a passar mas muito raros, tal como os carros, passava um agora
e outro muito depois. Então a minha vizinha, que era muito mais velha, não me deixou ficar sozinha na baixa e levou-me com ela para a Escola Brotero e lá ficámos até nos virem buscar. A escola também estava fechada, mas os alunos iam chegando e também iam ficando até alguém os ir buscar.Só à noite, quando a RTP abriu a emissão, é que se soube o que realmente tinha acontecido e vimos as imagens. Lembro-me que a maioria das pessoas foi para casa de outras que tinham televisão para verem o que realmente teria acontecido pois nem queriam acreditar que fosse verdade, que o regime de Salazar, Marcelo Caetano e Américo Tomás tinha ido abaixo.
Depois desse dia, os tempos foram de mudança, de liberdade mas também de crise, pois com o fim da guerra no Ultramar e da entrega das Colónias, muitos portugueses regressaram a Portugal sem nada. A partir daí, as pessoas começaram a ter mais liberdade e a poderem escolher, por exemplo, o seu visual - os homens deixaram crescer o cabelo e as barbas, começaram a usar calças à boca-de-sino, as senhoras usavam saias mais curtas e passaram a usar também calças. As pessoas deixaram de fumar às escondidas, os casais de namorados passaram a poder-se beijar na rua, coisas que antes da revolução do 25 de Abril era completamente impensável fazer.
O 25 de Abril de 1974 trouxe a liberdade ao povo, que antes deste vivia debaixo de uma grande opressão. Hoje somos livres de falar e criticar as decisões do governo se não as acharmos correctas, o voto é livre e já ninguém é obrigado a ir para a guerra.
O 25 de Abril não trouxe só coisas boas, mas depois deste vivemos muito melhor pois não estamos sempre com medo de falar e de estar sempre alguém que nos possa ouvir e nos levar presos.
Formanda do CNO
Maria de Lurdes Silva Jorge